Por Maíra Brandão
Como misturar palavra cruzada, com música e smartphones pra tentar transformar a abordagem sobre uma cidade? Esse foi o desafio lançado pela ocupação GPS Coquetel Musical, no laboratório multimídia do Centro de Artes e Esportes Unificados (CEU) de Petrolina (PE). Situado no semi-árido pernambucano, o município é conhecido pela exportação de frutas, principalmente as uvas, e marcado pelo cenário do Rio São Francisco, que faz a divisa entre Pernambuco e Bahia. O CEU de Petrolina fica no bairro Rio Corrente e estava recém-inaugurado – em dezembro de 2014 – quando foi escolhido para fazer parte do programa LabCEUs – Laboratórios de Cidades Sensitivas.
Para desdobrar essa missão, o projeto GPS Coquetel Musical, selecionado através da primeira chamada pública do LabCEUs, convidou os moradores da cidade para desenvolver um jogo baseado em localização, utilizando a tecnologia GPS. Durante quatro meses, os pesquisadores Macello Medeiros e Luiz Adolfo Andrade abordaram conceitos de design de jogos, mapeamento, cidades inteligentes e música regional.
Ao longo dos encontros, os jovens foram estimulados a observarem melhor a cidade onde vivem. Para Luiz Adolfo, um resultado interessante do GPS foi possibilitar aos petrolinenses vivenciarem o local de uma outra maneira. “Eles passam ali pra ir na escola, passam pra ir no CEU, na casa de um amigo e estavam experimentando isso através do jogo, o que fez com que percebessem coisas que eles poderiam ajudar a mudar”, conta.
Sempre reforçando a ideia de que a tecnologia é meio, e a aplicação dessa ciência depende das pessoas que a pensam, os orientadores incentivaram um olhar mais apurado para o território. Isto, somado ao estímulo à criação de soluções para os problemas locais, incentivou os participantes a exercitarem o desenvolvimento de protótipos, como aplicativos para saber os horários e itinerários dos ônibus e uma rede social para conectar os skatistas da cidade.
Os participantes da ocupação, Carlos e Vinícius, apresentam a ideia de aplicativo Petro City Skateboard:
Na avaliação de Luiz Adolfo, o chamado pra produzir colaborativamente um game também proporcionou novas conexões dos moradores da região com o CEU. “Percebi que muitos ali não conheciam o CEU. Eles chamavam de quadra, porque era o espaço que utilizavam do equipamento, e o laboratório multimídia ainda não estava funcionando quando chegamos. Usamos muito as salas multiuso pra compartilhar ideias, métodos de elaboração de projetos. Então acho que eles aprenderam a usar aquele espaço pra outras coisas”, relata o professor.
O estudante de Jornalismo Lucas Ferreira, que mora no bairro e participou do projeto, também considerou a interatividade entre os jovens um ponto importante da iniciativa. “O CEU tem todo tipo de esporte, tem todo tipo de pessoa. Isso ajuda muito porque ativa a criatividade e dá pra ir pra vários lados. Um professor dava uma ideia de integração de cultura com tecnologia e a gente desenvolvia, cada um contribuindo de um jeito. Um desenhou, um escreveu, outro sugeriu”, descreve Lucas.
Depois de apreenderem uma série de conceitos para o desenvolvimento do aplicativo veio a oficina de música regional, através da qual foi evidenciada a relação da linguagem artística com o território. “Os gêneros e narrativas do sertão foram bem trabalhados, pra mostrar quanta coisa do lugar onde vivem é retratada através da música”, explica Luiz.
O projeto saiu da esfera do pensamento e disponibilizou para o mundo o aplicativo desenvolvido em Petrolina, com duas versões para serem jogadas in loco, uma no bairro Rio Corrente, outra na orla do Rio São Francisco. O jogo tem por objetivo decifrar os enigmas de palavras cruzadas, cada uma associada a uma localização. Quando o jogador chega em determinado ponto do bairro o aplicativo libera uma pista, em imagem ou em áudio, pra resolver a charada.
Lucas ressalta a importância da ferramenta por possibilitar uma abordagem diferente para aprender sobre a cidade. “O jogo é massa, é divertido. Acho que ele é bom pra você conhecer mais sobre a cidade porque tem muitas coisas relacionadas a histórias que a gente não conhece. Então a gente tem que perguntar ao pai, ao avô, pra entender mais do passado”, destaca o estudante.
Breno Almeida, estudante de computação que também participou do desenvolvimento do GPS Coquetel Musical, também foi cativado pelo projeto. “Eu acho que o jogo vai dar realmente muito certo porque consegue movimentar o CEU e cria essa relação com a realidade daqui. Isso que eu acho o mais importante, alinhar coisas que já existam, principalmente livres, para tornar real e possível o desenvolvimento de um projeto”, avalia.
Assista o vídeo sobre o desenvolvimento do game GPS Coquetel Musical:
A ocupação GPS Coquetel Musical também foi bem recebida pelos gestores do Centro de Artes e Esportes Unificados de Petrolina. Para Robson Rocha, secretário executivo de Juventude e Qualificação Profissional do município, foram muito evidentes os retornos positivos pela movimentação no laboratório multimídia. “A partir do momento em que você oferece algo nesse espaço, há um empoderamento do equipamento, a comunidade se torna parte daquele espaço. Essa autonomia, esse zelo da comunidade, além da qualificação que possibilita o GPS Coquetel Musical, foi tudo muito bom. Se brincar já tem gente saindo de lá pro mercado de trabalho”, comenta o gestor.
Rocha também elogiou a iniciativa do Ministério da Cultura, em parceria com a Universidade Federal de Pernambuco, de implantar o programa de ocupação dos laboratórios multimídia dos CEUS, o LabCEUs. “Após a concepção do equipamento, o Ministério da Cultura acertou com esse projeto que ocupa. Foi maravilhoso porque envolveu bastante os jovens dos bairros adjacentes.”, considerou o secretário.
O aplicativo GPS Coquetel Musical está disponível para a versão Android na Google Play Store e em breve estará disponível também na Windows e Apple Store. Também é possível acessar o código no Github do LabCEUs.
Petrolina – A cidade é uma das 10 que fazem parte do programa piloto LabCEUs – Laboratórios de Cidades Sensitivas, desenvolvido pelo Ministério da Cultura (MinC) e pela Universidade Federal de Pernambuco (UFPE), no intuito de transformar os laboratórios multimídia dos Centros de Artes e Esportes Unificados em espaços de produção, não só de acesso. Através do programa, o CEU do Rio Corrente recebeu também, no primeiro semestre de 2015, a ocupação Territórios Nordeste, Mapeamento Cultural Multimídia, que buscou realizar uma cartografia cultural de forma colaborativa com os moradores da cidade.













