Ocupação em Sertãozinho estimula jovens a criarem e compartilharem suas experiências
Por Maíra Brandão
Pros mais tradicionais, provavelmente a ideia de juntar crianças num laboratório não seja muito atraente. “Vai dar errado”, podem alertar sobre a inexperiência dos pequenos para conduzir qualquer experimento. “Vai quebrar”, devem comentar, no cuidado pelos dispositivos eletrônicos e outros artefatos que estejam à mão. Mas o que aconteceu no laboratório multimídia do Centro de Artes e Esportes Unificados (CEU) de Sertãozinho, em São Paulo, foi bem diferente.
Essa história com os desenvolvedores mirins começou quando a educadora Katharine Diniz teve seu projeto “Criando Personagens 3D em Softwares e Hardwares Livres” aprovado pelo LabCEUs, para acontecer durante dois meses na cidade paulista. Em abril, ela, que já vinha discutindo ações de extensão universitária relacionadas ao fomento de “territórios de desenvolvimento e colaboração”, deu início à ativação do espaço.
Como propõe o programa Laboratórios de Cidades Sensitivas, Katharine chegou em Sertãozinho com sua proposta de transformação do ambiente. “Geralmente nos cursos as pessoas recebem conteúdos, aulas, e a gente tava interessado em propor que as pessoas desenvolvessem coisas, fosse audiovisual, fosse modelagem, e eu cheguei com essa coisa do 3D”, conta a comunicadora.
O sistema aplicado desencadeou um processo de colaboração e desenvolvimento de projetos que supreendeu a todos. “Acho que os processos os inspiraram a ter coragem de mobilizar pessoas para resolver um desafio coletivamente. De expor o próprio projeto (o que é bem raro de se ver, não é mesmo?!) e discursar (com muita eloquência, inclusive) sobre erros, tentativas, indagações e piadas que surgem enquanto cada um se entrega a ele. De reconhecer o outro como possível parceiro, de respeitar suas ideias. Para mim, essas atitudes são fundamentais para qualquer articulação comunitária”, diz Katharine.
Katharine destaca a autonomia que deu para cada participante desenvolver a atividade que mais interessava no contexto dos encontros. “Acho que o que foi marcante nesse processo é que cada um tinha um interesse bem diferente. Mesmo que eu começasse com uma proposta, tipo, história em quadrinhos, cada um tem um quadro de referências completamente diferente e eu não segurava eles pra desenvolver uma história em quadrinhos. Um queria pintar, o outro queria desenhar à mão, outro queria escrever a história, então cada um tinha o seu projeto e quando eu via que surgia uma dúvida, eu abria essa dúvida pra todo mundo”, explica.
Uma das participantes da ocupação, a estudante Alessandra Alves Valério, de 14 anos, conta que gostou muito do formato. “Foi muito legal porque além de se conhecer, a gente tinha um ao outro, se ajudando. Então, quando um não sabia, o outro ia lá e ajudava. A Katharine também foi muito importante na estruturação, porque quando ela via que alguém tinha problema, incentivava o outro a ajudar, e depois já virou costume e todo mundo se ajudava mesmo”, falou.
Do ponto de vista técnico, os participantes da ocupação aprenderam princípios de animação 3D, como edição de imagens, modelagens, escultura digital, entre outros, justamente a parte da qual Alessandra fala com mais entusiasmo. “É muito legal ver que o seu trabalho deu certo, articulando, mexendo braços, essas coisas. Eu já fiz uma animação em vídeo. Foi muito legal a experiência porque você vê todo o processo da animação, desde o começo”, explica a adolescente.
Em seu projeto de mestrado, Katharine defende que pessoas de 10 anos são capazes de criar conhecimento. Apesar de não focar nesse ponto quando deu início ao projeto, a educadora teve a oportunidade de experimentar, na prática, a sua teoria, já que seu público teve idade entre 10 e 15 anos. “Está provado que essas pessoas são completamente capazes de criar muitas coisas. Eles são capazes de desenvolver projetos e criar discursos sobre o que eles estão produzindo. Escrever e falar sobre isso. Filmei muitos momentos de como eles fizeram, o que aconteceu, o que aconteceu diferente do planejado… Eles são artistas, é algo muito maior”, comenta.
Katharine conta muito dessa vivência da ocupação em seu blog http://culturadigital.br/personagens3d, e traz ricas contribuições para o debate sobre o formato das ocupações. Em seu último post, ela reflete: “Ocupar não é só dar curso, oficina ou capacitação. É como cultivar uma horta. E, por incrível que pareça, é jogar lenha na fogueira também, questionando. É inspirar à experimentação, seja do que for. Assim, ocupei por alguns meses, mas o propósito disso é provocar os participantes a pisar em qualquer território com postura e respeito de ocupador também. E, no caso do CEU de Sertãozinho, a transformarem aquele espaço, continuamente, por vários anos. É propor desafios de percepção que os instiguem a enxergar cada vez mais potencialidades nesse “mangue de desenvolvimento”. E para cuidarem dele, para que esse ninho (o LabCEU) continue cheio de vida e de morte”.
Para o gestor do CEU, Acácio Tobias, a realização das ocupações (em Sertãozinho, além da iniciativa de Katharine, o LabCEUs apoiou o projeto Comunidade Transforma, focado no audiovisual) trouxe novas perspectivas para os jovens da comunidade. “Como em muitos outros lugares do Brasil, o CEU está num bairro de periferia, então as crianças nem imaginavam as possibilidades do computador em si. Conhecemos tecnologias novas, que nunca tinham chegado na cidade, como a impressora 3D. Daí eles começam a olhar o computador não só como uma ferramenta pra entrar na rede social e ver email, eles começam a ter um horizonte maior. Quando a gente consegue expandir a mente de uma criança, isso não tem preço”, avalia.
A ocupação Criando Personagens 3D em Softwares e Hardwares Livres termina, mas deixa a semente da criatividade e da autonomia nos jovens que dela participaram. Katharine em breve deverá estar de volta com seus processos experimentais ao CEU de Sertãozinho, já que sua proposta “Criando Jogos Livres em (com) Comunidade(s)” foi pré-selecionada na segunda chamada pública do LabCEUs. O resultado final do processo seletivo deverá ser divulgado na próxima semana.





