A outra ocupação que ocorreu em São Félix do Xingu foi Vozes da Inclusão: Tecendo Redes no Xingu e com o Solimões, que durante quatro meses buscou identificar, através da comunicação, referências locais para criar espaços de reverberação dessas vozes como instrumento de construção de memória, reivindicação, produção de conhecimento e desenvolvimento colaborativo de ideias.
Pra realizar esse trabalho de mídia independente, que culminou com a instalação de um transmissor no CEU, os participantes foram apresentados a algumas ferramentas essenciais pra desenvolver ações em rádio: legislação sobre controle das ações policiais, princípios de jornalismo, instalação de transmissores, montagem de grade de programação e criação de blogs.
Ná rádio que funcionou no Centro de Artes e Esportes Unificados durante um mês, todos os dias, de segunda a sexta, os participantes organizaram a programação, realizaram entrevistas e mobilizaram a cidade para falar de temas de seu interesse. “As meninas botavam mesmo a boca no trombone. Eu nem me metia porque era o programa delas. Cada um ficava livre pra desenvolver”, conta o pesquisador de história da língua indígena, Gleison Martins, idealizador da ação que se desdobrou pra abranger o máximo do entorno do CEU ao longo do projeto.
Às sextas-feiras, um programão reunia os assuntos prediletos pra fechar a semana. “Futebol, música, religião… Era aberto. A programação acontecia dentro do que eles aprenderam sobre as leis de rádio difusão. Nada de proselitismo religioso, nem político, não pode ser racista, nem homofóbico. Ao mesmo tempo tinha a moçada que fazia evangélico, rock, brega, techno melody”, descreve Gleison.
Entrevista com Seu Viana, poeta da cidade:
O secretário de Cultura de São Félix do Xingu, Jamilson Pereira, conta que existe um anseio pra retomada do LabCEUs na cidade. “Pra nós foi um imenso prazer receber os projetos do LabCEUs. Com eles nós podemos fomentar a cultura local. O espaço também foi usado da melhor forma possível, uma vez que os instrutores movimentaram a biblioteca, o espaço multiuso, o anfiteatro, tudo simultaneamente. O vazio que o projeto deixou depois após ser concluso é demais, sentimos uma grande saudade”, conclui o gestor.
Transborda – Junto com Hugo, realizador do Microdocs, e o secretário de Cultura da cidade, Jamilson Pereira, Gleison seguiu em uma expedição até a vila de Tabocas, a 100 km de São Félix, para apresentar aos jovens de lá a proposta das ocupações. A ideia era tentar fazer com que eles participassem também, já que se trata de uma região extremamente carente de opções de aprendizagem e lazer. Gleison explica que a precariedade no povoado recai sobre o uso de entorpecentes: “Na droga e no álcool eles encontram uma válvula de escape pra fugir do abandono e da violência da família”.
O custo pra esse deslocamento é alto, tanto pros jovens de Tabocas quanto pra gestão municipal, mas Gleison estava determinado a montar um esquema alternativo pra movimentar a vila. Tanto foi que o bolsista do LabCEUs passou a operar da seguinte maneira: durante a semana, trabalhava em São Félix, nos finais de semana, se deslocava pra distritos vizinhos, encarando aproximadamente 4 horas de carro.
Mesmo já tendo deixado São Félix, Gleison, morador de Tefé, continua acompanhando os grupos que se formaram por meio de aplicativos de mensagens, através da parca conexão de 1kpbs da operadora de telefonia móvel. “A gente fica acordado até tarde pra poder conversar porque de madrugada dá pra chegar a 1 mega”, relata.
O pesquisador conta da ansiedade dos jovens pra dar continuidade às discussões, com o material de referência que deixaram por lá: “Fica todo mundo querendo trabalhar, ler o material que deixaram na escola. As aulas não começaram ainda. Liguei antes de ontem e tinham se reunido pra discutir como fariam a rádio poste, mas a logística de mandar equipamento pra la é muito difícil, vamos aguardar”.
Parece não haver distância que esmoreça a energia de Gleison. Morador da cidade de Tefé, ele planeja voltar pra São Félix pra dar continuidade ao trabalho realizado com a juventude de lá.
As entrevistas realizadas na rádio do CEU através da ocupação Vozes da Inclusão estão compiladas no https://soundcloud.com/zein-5. Os relatos do que aconteceu ao longo do projeto estão reunidos no http://culturadigital.br/vozdailha.

